Durante três décadas, a lógica das cadeias globais de valor foi relativamente simples: produzir onde o custo fosse menor, transportar pelo caminho mais eficiente e confiar que o comércio fluiria sem grandes interrupções. Essa lógica não desapareceu, mas deixou de ser suficiente. Pandemia, conflitos, disputas tarifárias e a corrida por tecnologias estratégicas introduziram novas variáveis na equação: proximidade, previsibilidade, segurança de suprimento e alinhamento regulatório.
O resultado é um rearranjo ainda em curso, cujo desenho final ninguém conhece. O que já é possível observar, porém, são sinais consistentes de que a América Latina ocupa nesse novo mapa uma posição diferente da que ocupava há dez anos. Três desses sinais merecem atenção especial, não isoladamente, mas pela forma como se conectam.
Primeiro sinal: a geografia voltou a ter preço
O primeiro sinal é o mais visível e tem endereço claro: a fronteira entre México e Estados Unidos. O México se tornou o principal parceiro comercial dos Estados Unidos no início de 2023, e o comércio bilateral somou US$ 873 bilhões em 2025. No mesmo ano, o México respondeu por 15,6% de todos os bens exportados e importados pelos Estados Unidos, enquanto a participação da China caiu para 7,5%. Em poucos anos, uma relação que parecia estruturalmente estável foi reordenada.
O movimento, contudo, é mais complexo do que a narrativa de substituição sugere. Em paralelo ao avanço mexicano no mercado norte-americano, as exportações chinesas para o México cresceram até alcançar 21% das importações mexicanas, gerando superávit de quase US$ 120 bilhões para a China em 2024. O rearranjo não elimina a Ásia das cadeias; redistribui as etapas. Componentes continuam vindo de longe, enquanto montagem, integração e entrega se aproximam do consumidor final. O próprio México já sinalizou ajustes, com tarifas aprovadas para 2026 sobre mais de 1.400 produtos de países com os quais não tem acordo de livre comércio.
A dimensão do potencial regional foi estimada ainda em 2022. Segundo o BID, o nearshoring poderia acrescentar US$ 78 bilhões anuais em exportações de bens e serviços à América Latina e ao Caribe no curto e médio prazo, com oportunidades rápidas nos setores automotivo, têxtil, farmacêutico e de energia renovável. Os maiores ganhos ficariam com México e Brasil, com cerca de US$ 35,7 bilhões e US$ 7,8 bilhões adicionais em exportações de bens, respectivamente.
A estimativa não é uma garantia; é um teto. A distância entre o potencial e o realizado depende de infraestrutura, regras estáveis e capacidade produtiva instalada.
Segundo sinal: o subsolo virou ativo geopolítico
O segundo sinal está debaixo da terra. A transição energética e a expansão da infraestrutura digital dependem de cobre, lítio, grafite e terras raras, e a América Latina concentra parcela expressiva dessas reservas. A CEPAL estima que a região detém 46% das reservas mundiais de lítio, 35% das de cobre, 28% das de grafite e 23% das de terras raras. Num cenário em que as principais economias buscam assegurar acesso a matérias-primas estratégicas, esses recursos ganham peso econômico e diplomático.
O interesse já se traduz em capital. Estimativas do Citi indicam que a região recebeu cerca de US$ 3,2 bilhões em investimento de exploração mineral em 2025, o equivalente a 26% do total mundial, com o Chile como principal destino.
O ponto crítico está no elo seguinte da cadeia. A América Latina segue mais forte em extração do que em refino e processamento, enquanto a China domina entre 60% e 80% da capacidade global de refino de lítio, cobalto, grafite e terras raras. Um dado ilustra a escala da diferença: o Chile refina cerca de 1,7 milhão de toneladas de cobre; a China processa aproximadamente 14 milhões.
A questão para a região, portanto, não é se terá relevância nas cadeias de minerais críticos, mas em qual etapa essa relevância será exercida. Extrair gera receita; processar gera capacidade industrial, emprego qualificado e poder de barganha. É nessa fronteira que se decide quanto do valor do rearranjo permanece na região.
Terceiro sinal: o capital está mudando de origem e de destino
O terceiro sinal aparece nos fluxos de investimento. Segundo a CEPAL, o investimento estrangeiro direto na América Latina e no Caribe cresceu 1,7% em 2025, chegando a US$ 194,2 bilhões, o equivalente a 14% da formação bruta de capital fixo e 2,8% do PIB regional. O crescimento modesto esconde movimentos internos relevantes. O Brasil recebeu 40% do total, com fluxos próximos dos máximos da década de 2010, enquanto o México, com 22%, registrou o terceiro maior montante desde 1990.
A origem do capital também se deslocou. Os Estados Unidos seguiram como principal investidor, com 35% do total, mas os fluxos dessa origem recuaram 11% em 2025, enquanto os investimentos europeus aumentaram e chegaram a 32%. A própria CEPAL observa que o impacto das mudanças na política tarifária norte-americana sobre o investimento na região é altamente heterogêneo entre países e setores.
Em paralelo, o comércio com a Ásia seguiu em expansão. Dados da Administração Geral de Aduanas da China mostram que o intercâmbio com a América Latina atingiu cerca de US$ 565 bilhões em 2025, com crescimento de 6,5%, acima do ritmo do comércio exterior chinês como um todo. Carne, soja e minerais como o cobre sustentaram grande parte dessa expansão.
O que os três sinais dizem juntos
Lidos em conjunto, os três sinais descrevem uma região que deixou de ocupar uma única posição nas cadeias globais para ocupar várias ao mesmo tempo. Para a América do Norte, a América Latina é plataforma de proximidade. Para a Ásia, fornecedora de alimentos e minerais. Para a Europa, destino crescente de capital.
Essa multiplicidade é, ao mesmo tempo, oportunidade e complexidade. A CEPAL propõe uma estratégia flexível diante da competição entre grandes blocos: em vez de alinhamento integral a um dos lados, construir parcerias diferentes conforme o setor ou o objetivo.
O rearranjo também não beneficia a região de forma homogênea. México e Brasil concentram a maior parte do capital e do potencial de nearshoring; Chile, Peru e Argentina se destacam em minerais; países da América Central e do Caribe disputam nichos em serviços, dispositivos médicos e logística. Cada economia enfrenta uma pergunta própria sobre onde se encaixar e com que intensidade. Segundo a CEPAL, persiste na região a dificuldade de integrar de maneira coerente as agendas de comércio, investimento e desenvolvimento produtivo, o que limita o impacto transformador que o investimento externo poderia ter.
Para as empresas que operam na região, o novo mapa exige leitura mais fina. A pergunta deixou de ser apenas "onde produzir mais barato" e passou a incluir "de onde vêm meus insumos", "a quais tarifas cada rota está exposta", "que regras de origem se aplicam" e "qual parceiro comercial sustenta a demanda de cada categoria". Cadeias que pareciam estáveis podem ser redesenhadas por uma decisão tarifária; categorias que pareciam marginais podem ganhar centralidade por uma exigência de suprimento estratégico.
O rearranjo das cadeias globais não é um evento pontual. É um processo contínuo, com avanços, recuos e ajustes. A América Latina entra nele com ativos que o mundo procura: proximidade, recursos, alimentos, energia e capacidade produtiva. O que ainda está em aberto é quanto desse valor será transformado em posição duradoura. E essa resposta dependerá menos do mapa e mais da capacidade de ler os sinais antes que eles se tornem consenso.
- Bloomberg. "Mexico's Moment: The Biggest US Trading Partner Is No Longer China", set. 2023.
- U.S. Census Bureau / BEA. U.S. International Trade in Goods and Services, dez. 2025.
- Federal Reserve Bank of Dallas (Kelly, B.). "China remains modest player in U.S.–Mexico trade", 2025.
- BID. "Nearshoring can add annual $78 bln in exports to Latin America and Caribbean", 2022.
- CEPAL. "Expertos discuten el potencial y los desafíos de los minerales críticos", abr. 2025.
- Citi. Estimativas de exploração mineral, 2025.
- CEPAL. Relatório anual de investimento estrangeiro direto, dados de 2025.
- Administração Geral de Aduanas da China. Comércio China–América Latina, 2025.
- CAF. "Más allá del litio y el cobre", mar. 2026.
